Entre o terror e a noite caminhei
Não em redor das coisas mas subindo
Através do calor das suas veias
Não em redor das coisas mas morrendo
Transfigurada em tudo quanto amei
Entre o luar e a sombra caminhei
Era ali a minha alma, cada flor
- Cega, secreta e doce como estrelas -
Quando a tocava nela me tornei
E as árvores abriram os seus ramos
Os seus ramos enormes e convexos
E no estranho brilhar dos seus reflexos
Oscilavam sinais, quebrando ecos
Que no silêncio fantástico beijei.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não tenho escrito. Nem muito nem pouco. Aqui ou noutro lado qualquer.
Ando cheia. De trabalho, e de outras coisas. De tudo.
Estou sem tempo e sem paciência.
As coisas não andam bem por estes lados. Ou seja, eu não ando bem.
E sou tão transparente que se reflecte em tudo. E de que maneira. Começando pela gripe "incurável" e constante que me dura há mais de um mês. Piorou, melhorou e agora, depois de piorar outra vez (tive um lindo feriado), parecia que ia melhorar, mas não, está a degenerar numa otite! Lindo!
As pessoas olham para mim e vêem logo que as coisas não estão bem por aqui.
Sem sequer me conhecerem assim tão bem. Mas tudo em mim reflecte o que me vai na alma.
E quem devia conseguir ver isso, não vê.
Porque eu também disfarço muito bem.
Nunca se passa nada.
Está sempre tudo bem. O mundo é lindo, maravilhoso, e eu estou sempre zen com o que se passa em meu redor. Como é que podem reparar que eu não estou feliz, se eu nunca me queixo?
De que é que me serve?
Não é assim que as coisas vão mudar, ou que vou ser mais feliz, porque é que hei-de de despejar queixumes constantes nos ouvidos dos outros?
O que (mais) será preciso fazer para fugir a este marasmo?
Cada vez me custa mais sair da cama...
(Tem graça, já reparaste que mesmo afastadas, sentes sempre o que se passa comigo?...
E nem contigo posso falar destas coisas agora, porque só vou ficar pior...)
The wind is changing...
Nestes dias sinto-me oca, vazia, e mesmo assim, pesada como chumbo.
Os pés quase não saiem do chão...
Sentes-te bem? (Claro que não!)
Sim, claro!
Apetece-me chorar o que me vai na alma...
Gritar para quebrar este silêncio!
Que se passa contigo? (Tudo!)
Nada, nunca se passa nada comigo.
Nesta altura apetece-me voar, desaparecer numa nuvem qualquer ou numa onda do mar...
Quando é que esta névoa se dissipa?
Quando posso voltar a respirar?
Esta chuva negra cai sem cessar e não consigo ver o sol...
Xiu. Silêncio.
Pára!
Logo que nasci
Foi-me dada ordem
De me procurar
Logo assim e aqui
Não vou ter descanso
Em nenhum lugar
Natércia Freire
A coisa anda tão agreste q me esqueci de cá vir comemorar...
É que aqui o estaminé fez 1 anito este mês...
Parabéns pá!
Porque é que estes gajos quando andam carentes, agem todos da mesma maneira?
É sempre o mesmo filme...
Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
e vais à cave içar o teu malão.
Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo - é minha! - a tua pele.
Achei até um sonho muito velho,
não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
que eu costumo usar quando está frio?
E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?
A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?
Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?
De quem é esta briga? Não me lembro.
Rosa Lobato Faria
Principalmente se for da Madeira...